Memórias Póstumas de Brás Cubas

Machado de Assis

Romances

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Machado de Assis

Um defunto resolve contar a própria vida e começa pelo fim: o seu enterro. Com ironia e sem pressa, Brás Cubas repassa os amores, as vaidades e os fracassos de um rico ocioso do Rio de Janeiro do século XIX. Publicado em 1881, é o romance que inaugurou o realismo no Brasil e virou Machado de Assis do avesso.

O começo da obra

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Prólogo da terceira edição

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A primeira edição destas Memórias Póstumas de Brás Cubas foi feita aos pedaços na Revista Brasileira, pelos anos de 1880. Postas mais tarde em livro, corrigi o texto em vários lugares. Agora que tive de o rever para a terceira edição, emendei ainda alguma coisa e suprimi duas ou três dúzias de linhas. Assim composta, sai novamente à luz esta obra que alguma benevolência parece ter encontrado no público.

Capistrano de Abreu, noticiando a publicação do livro, perguntava: “As Memórias Póstumas de Brás Cubas são um romance?” Macedo Soares, em carta que me escreveu por esse tempo, recordava amigamente as Viagens na minha terra. Ao primeiro respondia já o defunto Brás Cubas (como o leitor viu e verá no prólogo dele que vai adiante) que sim e que não, que era romance para uns e não o era para outros. Quanto ao segundo, assim se explicou o finado: “Trata-se de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo.” Toda essa gente viajou: Xavier de Maistre à roda do quarto, Garret na terra dele, Sterne na terra dos outros. De Brás Cubas se pode dizer que viajou à roda da vida.

O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele chama “rabugens de pessimismo”. Há na alma deste livro, por mais risonho que pareça, um sentimento amargo e áspero, que está longe de vir de seus modelos. É taça que pode ter lavores de igual escola, mas leva outro vinho. Não digo mais para não entrar na crítica de um defunto, que se pintou a si e a outros, conforme lhe pareceu melhor e mais certo.

Machado de Assis.

AO LEITOR

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Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

Brás Cubas.

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A obra completa

162 partes, todas no original e em português de hoje

  1. Prólogo da terceira edição
  2. AO LEITOR
  3. CAPÍTULO PRIMEIRO / ÓBITO DO AUTOR
  4. CAPÍTULO II / O EMPLASTO
  5. CAPÍTULO III / GENEALOGIA
  6. CAPÍTULO IV / A IDÉIA FIXA
  7. CAPÍTULO V / EM QUE APARECE A ORELHA DE UMA SENHORA
  8. CAPÍTULO VI / CHIMÈNE, QUI L'EÛT DIT? RODRIGUE, QUI L'EÛT CRU?
  9. CAPÍTULO VII / O DELÍRIO
  10. CAPÍTULO VIII / RAZÃO CONTRA SANDICE
  11. CAPÍTULO IX / TRANSIÇÃO
  12. CAPÍTULO X / NAQUELE DIA
  13. CAPÍTULO XI / O MENINO É PAI DO HOMEM
  14. CAPÍTULO XII / UM EPISÓDIO DE 1814
  15. CAPÍTULO XIII / UM SALTO
  16. CAPÍTULO XIV / O PRIMEIRO BEIJO
  17. CAPÍTULO XV / MARCELA
  18. CAPÍTULO XVI / UMA REFLEXÃO IMORAL
  19. CAPÍTULO XVII / DO TRAPÉZIO E OUTRAS COISAS
  20. CAPÍTULO XVIII / VISÃO DO CORREDOR
  21. CAPÍTULO XIX / A BORDO
  22. CAPÍTULO XX / BACHARELO-ME
  23. CAPÍTULO XXI / O ALMOCREVE
  24. CAPÍTULO XXII / VOLTA AO RIO
  25. CAPÍTULO XXIII / TRISTE, MAS CURTO
  26. CAPÍTULO XXIV / CURTO, MAS ALEGRE
  27. CAPÍTULO XXV/ NA TIJUCA
  28. CAPÍTULO XXVI / O AUTOR HESITA
  29. CAPÍTULO XXVII / VIRGÍLIA?
  30. CAPÍTULO XXVIII / CONTANTO QUE...
  31. CAPÍTULO XXIX / A VISITA
  32. CAPÍTULO XXX / A FLOR DA MOITA
  33. CAPÍTULO XXXI / A BORBOLETA PRETA
  34. CAPÍTULO XXXII / COXA DE NASCENÇA
  35. CAPÍTULO XXXIII / BEM-AVENTURADOS OS QUE NÃO DESCEM
  36. CAPÍTULO XXXIV / A UMA ALMA SENSÍVEL
  37. CAPÍTULO XXXV / O CAMINHO DE DAMASCO
  38. CAPÍTULO XXXVI / A PROPÓSITO DE BOTAS
  39. CAPÍTULO XXXVII / ENFIM!
  40. CAPÍTULO XXXVIII / A QUARTA EDIÇÃO
  41. CAPÍTULO XXXIX / O VIZINHO
  42. CAPÍTULO XL / NA SEGE
  43. CAPÍTULO XLI / A ALUCINAÇÃO
  44. CAPÍTULO XLII / QUE ESCAPOU A ARISTÓTELES
  45. CAPÍTULO XLIII / MARQUESA, PORQUE EU SEREI MARQUÊS
  46. CAPÍTULO XLIV / UM CUBAS!
  47. CAPÍTULO XLV / NOTAS
  48. CAPÍTULO XLVI / A HERANÇA
  49. CAPÍTULO XLVII / O RECLUSO
  50. CAPÍTULO XLVIII / UM PRIMO DE VIRGÍLIA
  51. CAPÍTULO XLIX / A PONTA DO NARIZ
  52. CAPÍTULO L / VIRGÍLIA CASADA
  53. CAPÍTULO LI / É MINHA!
  54. CAPÍTULO LII / O EMBRULHO MISTERIOSO
  55. CAPÍTULO LIII / . . . . .
  56. CAPÍTULO LIV / A PÊNDULA
  57. CAPÍTULO LV / O VELHO DIÁLOGO DE ADÃO E EVA
  58. CAPÍTULO LVI / O MOMENTO OPORTUNO
  59. CAPÍTULO LVII / DESTINO
  60. CAPÍTULO LVIII / CONFIDÊNCIA

e mais 102.

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