Dom Casmurro

Machado de Assis

Romances

Dom Casmurro

Machado de Assis

Já velho, Bento Santiago escreve a própria história para responder a uma pergunta: Capitu, a menina dos "olhos de ressaca" com quem se casou, o traiu com o melhor amigo? Contado por um marido ciumento que nunca apresenta provas, o romance de 1899 deixa o veredito com o leitor, e há mais de um século ninguém chega a um acordo.

O começo da obra

Leia aqui mesmo, sem conta. Comece pelo texto como foi escrito e veja, parágrafo a parágrafo, o que o Mentor faz com ele.

Toque no ao lado de um parágrafo para vê-lo em português de hoje.

CAPÍTULO PRIMEIRO — DO TÍTULO

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Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

— Continue, disse eu acordando.

— Já acabei, murmurou ele.

— São muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você”.— "Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo”.— "Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça”.

Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.

CAPÍTULO II — DO LIVRO

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Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.

Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas crêem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal freqüência é cansativa.

Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.

Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos Subúrbios, menos seca que as memórias do padre Luís Gonçalves dos Santos, relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras?...

Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo.

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A obra completa

148 partes, todas no original e em português de hoje

  1. CAPÍTULO PRIMEIRO — DO TÍTULO
  2. CAPÍTULO II — DO LIVRO
  3. CAPÍTULO III — A DENÚNCIA
  4. CAPÍTULO IV — UM DEVER AMARÍSSIMO!
  5. CAPÍTULO V — O AGREGADO
  6. CAPÍTULO VI — TIO COSME
  7. CAPÍTULO VII — D. GLÓRIA
  8. CAPÍTULO VIII — É TEMPO
  9. CAPÍTULO IX — A ÓPERA
  10. CAPÍTULO X — ACEITO A TEORIA
  11. CAPÍTULO XI — A PROMESSA
  12. CAPÍTULO XII — NA VARANDA
  13. CAPÍTULO XIII — CAPITU
  14. CAPÍTULO XIV — A INSCRIÇÃO
  15. CAPÍTULO XV — OUTRA VOZ REPENTINA
  16. CAPÍTULO XVI — O ADMINISTRADOR INTERINO
  17. CAPÍTULO XVII — OS VERMES
  18. CAPÍTULO XVIII — UM PLANO
  19. CAPÍTULO XIX — SEM FALTA
  20. CAPÍTULO XX — MIL PADRE-NOSSOS E MIL AVE-MARIAS
  21. CAPÍTULO XXI — PRIMA JUSTINA
  22. CAPÍTULO XXII — SENSAÇÕES ALHEIAS
  23. CAPÍTULO XXIII — PRAZO DADO
  24. CAPÍTULO XXIV — DE MÃE E DE SERVO
  25. CAPÍTULO XXV — NO PASSEIO PÚBLICO
  26. CAPÍTULO XXVI — AS LEIS SÃO BELAS
  27. CAPÍTULO XXVII — AO PORTÃO
  28. CAPÍTULO XXVIII — NA RUA
  29. CAPÍTULO XXIX — O IMPERADOR
  30. CAPÍTULO XXX — O SANTÍSSIMO
  31. CAPÍTULO XXXI — AS CURIOSIDADES DE CAPITU
  32. CAPÍTULO XXXII — OLHOS DE RESSACA
  33. CAPÍTULO XXXIII — O PENTEADO
  34. CAPÍTULO XXXIV — SOU HOMEM!
  35. CAPÍTULO XXXV — O PROTONOTÁRIO APOSTÓLICO
  36. CAPÍTULO XXXVI — IDÉIA SEM PERNAS E IDÉIA SEM BRAÇOS
  37. CAPÍTULO XXXVII — A ALMA É CHEIA DE MISTÉRIOS
  38. CAPÍTULO XXXVIII — QUE SUSTO, MEU DEUS!
  39. CAPÍTULO XXXIX — A VOCAÇÃO
  40. CAPÍTULO XL — UMA ÉGUA
  41. CAPÍTULO XLI — A AUDIÊNCIA SECRETA
  42. CAPÍTULO XLII — CAPITU REFLETINDO
  43. CAPÍTULO XLIII — VOCÊ TEM MEDO?
  44. CAPÍTULO XLIV — O PRIMEIRO FILHO
  45. CAPÍTULO XLV — ABANE A CABEÇA, LEITOR
  46. CAPÍTULO XLVI — AS PAZES
  47. CAPÍTULO XLVII — "A SENHORA SAIU”
  48. CAPÍTULO XLVIII — JURAMENTO DO POÇO
  49. CAPÍTULO XLIX — UMA VELA AOS SÁBADOS
  50. CAPÍTULO L — UM MEIO-TERMO
  51. CAPÍTULO LI — ENTRE LUZ E FUSCO
  52. CAPÍTULO LII — O VELHO PÁDUA
  53. CAPÍTULO LIII — A CAMINHO!
  54. CAPÍTULO LIV — PANEGÍRICO DE SANTA MÔNICA
  55. CAPÍTULO LV — UM SONETO
  56. CAPÍTULO LVI — UM SEMINARISTA
  57. CAPÍTULO LVII — DE PREPARAÇÃO
  58. CAPÍTULO LVIII — O TRATADO
  59. CAPÍTULO LIX — CONVIVAS DE BOA MEMÓRIA
  60. CAPÍTULO LX — QUERIDO OPÚSCULO

e mais 88.

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